ÍNTEGRA: Este é o discurso que o Papa Francisco não leu no Santuário Mariano de El Quinche, no Equador

O Papa Francisco teve nesta quarta-feira um encontro com sacerdotes e religiosos no Santuário de Nossa Senhora da Apresentação de El Quinche (Equador), no qual ofereceu uma mensagem improvisada e deixou de lado o discurso oficial para que ser publicado depois. No seu encontro o Papa disse aos presentes: “Hoje tenho que falar com os sacerdotes, os seminaristas, religiosas, religiosos, e dizer-lhes algo. Tenho um discurso preparado, mas não tenho vontade de ler (risadas dos fiéis), assim que o dou ao presidente da conferência de religiosos para que o faça público depois”, expressou o Papa. À continuação, o texto oficial do Santo Padre:
 
Queridos irmãos e irmãs:
Trago para os pés de Nossa Senhora de El Quinche o vivido nestes dias de minha visita; quero deixar em seu coração os idosos e doentes com os quais compartilhei um momento na casa das Irmãs da Caridade, e também todos os outros encontros que tive em antecedência. Eu os deixo no coração de Maria, mas também os deposito no coração de vocês: sacerdotes, religiosos e religiosas, seminaristas, para que chamados a trabalhar na vinha do Senhor, sejam custódios de tudo o que este povo do Equador vive, chora e se alegra.
Agradeço a Dom Lazzari, ao Padre Mina e à irmã Sandoval por suas palavras, que me permitem compartilhar com todos vocês algumas coisas na comum solicitude pelo Povo de Deus.
No Evangelho, o Senhor nos convida a aceitar a missão sem colocar condições. É uma mensagem importante que convém não esquecer, e que neste Santuário dedicado à Virgem da Apresentação ressoa com um acento especial. Maria é exemplo de discípula para nós que, como ela, recebemos uma vocação. Sua resposta confiada: «Faça-se em mim segundo sua Palavra», recorda-nos suas palavras nas bodas de Caná: «Fazei tudo o que ele vos disser » (Jn 2,5). Seu exemplo é um convite a servir como ela.
Na Apresentação da Virgem podemos encontrar algumas sugestões para nosso próprio chamado. A Virgem Menina foi um presente de Deus para seus pais e para todo o povo, que esperava a liberação. É um fato que se repete frequentemente na Escritura: Deus responde ao clamor de seu povo, enviando uma criança, fraca, destinada a trazer a salvação e, que ao mesmo tempo, restaura a esperança de pais idosos.
A palavra de Deus nos diz que na história de Israel, os juízes, os profetas, os reis são um presente do Senhor para fazer chegar sua ternura e sua misericórdia a seu povo. São sinal da gratuidade de Deus: é Ele quem os escolheu, escolheu e destinou. Isto nos afasta da auto-referencialidade, faz-nos compreender que já não nos pertencemos, que nossa vocação nos pede nos afastar de todo egoísmo, de toda busca de lucro material ou compensação afetiva, como nos disse o Evangelho. Não somos mercenários, mas servidores; não viemos a ser servidos, mas a servir e o fazemos no pleno desprendimento, sem bastão e sem bolsa.
Algumas tradições sobre a devoção a Nossa Senhora de El Quinche nos dizem que Diego de Robles confeccionou a imagem por encargo dos indígenas Lumbicí. Diego não o fazia por piedade, o fazia por um benefício econômico. Como não puderam pagar, levou-a a Oyacachi e a trocou por pranchas de cedro. Mas Diego se negou ao pedido desse povo para que fizesse também um altar à imagem, até que, caindo do cavalo, encontrou-se em perigo e sentiu o amparo da Virgem. Voltou para a cidade e fez o pedesral da imagem. Também todos nós temos experiência de um Deus que nos sai ao encontro, que em nossa realidade de cansados, derrubados, chama-nos. Que a vangloria e a mundanidade não nos façam esquecer de onde Deus nos resgatou! E que Maria de El Quinche nos faça descer dos lugares de ambições, interesses egoístas, cuidados excessivos de nós mesmos!
A «autoridade» que os apóstolos recebem de Jesus não é para seu próprio benefício: nossos dons são para renovar e edificar a Igreja. Não se neguem a compartilhar, não resistam a dar, não se fechem na comodidade, sejam mananciais que transbordam e refrescam, especialmente os oprimidos pelo pecado, a desilusão, o rancor (cf. Evangelii gaudium 272).
O segundo risco que me evoca a Apresentação da Virgem é a perseverança. Na sugestiva iconografia mariana desta festa, a Virgem menina se afasta de seus pais subindo as escadas do Templo. Maria não olha atrás e, em uma clara referência à admoestação evangélica, marcha decidida adiante. Nós, como os discípulos no Evangelho, também nós nos colocamos em caminho para levar a cada povo e lugar a boa notícia de Jesus. Perseverança na missão implica não andar tocando de casa em casa, procurando onde nos tratem melhor, onde haja mais meios e comodidades. Supõe unir nossa sorte com a de Jesus até o final. Alguns relatos das aparições da Virgem de El Quinche nos dizem que uma “senhora com um menino nos braços” visitou várias tardes seguidas os indígenas de Oyacachi quando estes se refugiavam da perseguição.
Várias vezes Maria foi ao encontro de seus filhos; eles não acreditavam, desconfiavam desta senhora, mas admiraram sua perseverança de voltar cada tarde, ao pôr do sol. Perseverar embora nos rechacem, embora se faça a noite e cresça o desconcerto e os perigos. Perseverar neste esforço sabendo que não estamos sozinhos, que é o Povo Santo de Deus que caminha.
De algum modo, na imagem da Virgem menina subindo ao Templo, podemos ver a Igreja que acompanha o discípulo missionário. Junto a ela estão seus pais, que lhe transmitiram a memória da fé e agora generosamente a oferecem ao Senhor para que possa seguir seu caminho; está sua comunidade representada no «séquito de virgens», «suas companheiras», com lâmpadas acesas (cf. Sal 44,15) e, nas que os Padres da Igreja, veem uma profecia de todos os que, imitando a Maria, procuram com sinceridade ser amigos de Deus, e estão os sacerdotes que a esperam para recebê-la e que nos recordam que na Igreja os pastores têm a responsabilidade de acolher com ternura e ajudar a discernir cada espírito e cada chamado.
Caminhemos juntos, sustentando-nos uns aos outros e peçamos com humildade o dom da perseverança em seu serviço.
Nossa Senhora de El Quinche foi ocasião de encontro, de comunhão, para este lugar que desde tempos incaicos se constituiu em um assentamento multiétnico. Que lindo é quando a igreja persevera em seu esforço por ser casa e escola de comunhão, quando geramos isto que eu gosto de chamar a cultura do encontro!
A imagem da Apresentação nos diz que uma vez abençoada pelos sacerdotes, a Virgem menina se sentou nos degraus do altar e dançou sobre seus pés. Penso na alegria que se expressa nas imagens do banquete das bodas, dos amigos do noivo, da esposa adornada com suas joias. É a alegria de quem descobriu um tesouro e o deixou tudo por consegui-lo.
Encontrar o Senhor, viver em sua casa, participar de sua intimidade, compromete a anunciar o Reino e levar a salvação a todos. Atravessar as soleiras do Templo exige nos converter como Maria em templos do Senhor e nos colocar em caminho para levá-lo aos irmãos. A Virgem, como primeira discípula missionária, depois do anúncio do Anjo, partiu sem demora a um povoado de Judá para compartilhar este imenso gozo, o mesmo que fez saltar São João Batista no seio de sua mãe. Quem escuta sua voz «salta de gozo» e se converte a sua vez em pregoeiro de sua alegria. A alegria de evangelizar move a Igreja, a faz sair, como Maria.
Embora são múltiplas as razões que se argumentam para o traslado do santuário de Oyacachi a este lugar, fico com uma: «aqui é e foi mais acessível, mais fácil para estar perto de todos». Assim o entendeu o Arcebispo de Quito, Frei Luis López de Solís, quando mandou edificar um Santuário capaz de convocar e acolher a todos. Uma igreja em saída é uma igreja que se aproxima, que se aplaina para não estar distante, que sai de sua comodidade e se atreve a chegar a todas as periferias que necessitam a luz do evangelho (cf. Evangelii gaudium 20).
Voltaremos agora para nossas tarefas, interpelados pelo Povo Santo que teve fé. Entre elas, não esqueçamos de cuidar, animar e educar a devoção popular que apalpamos neste santuário e tão estendida em muitos países latino-americanos. O povo fiel soube expressar a fé com sua própria linguagem, manifestar seus mais profundos sentimentos de dor, dúvida, gozo, fracasso, agradecimento com diversas formas de piedade: procissões, velas, flores, cantos que se convertem em uma bela expressão de confiança no Senhor e de amor à sua Mãe, que é também a nossa.
Em El Quinche, a história dos homens e a história de Deus confluem na história de uma mulher, Maria. E em uma casa, nossa casa, a irmã mãe terra. As tradições desta devoção evocam aos cedros, os ursos, a fenda na pedra que foi aqui a primeira casa da Mãe de Deus.
Falam-nos no ontem de pássaros que rodearam o lugar, e no hoje de flores que engalanam os arredores. As origens desta devoção nos levam a tempos onde era mais singela «a serena harmonia com a criação... contemplar o Criador que vive entre nós e que nos rodeia e cuja presença não precisa ser fabricada» (Laudato Si´ 225) e que se nos revela no mundo criado, em seu Filho amado, na Eucaristia que permite aos cristãos sentir-se membros vivos da Igreja e participar ativamente em sua missão (cf. Aparecida, 264), em Nossa Senhora de El Quinche, que acompanhou daqui os começos do primeiro anúncio da fé aos povos indígenas.
A ela encomendemos nossa vocação; que ela nos faça presente para nosso povo, que ela nos dê a perseverança na entrega e a alegria de sair a levar o Evangelho de seu filho Jesus –unidos a nossos pastores– até os limites, até as periferias do nosso querido Equador.
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